sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Assim eu vejo a vida

                           Cora Coralina


A vida tem duas faces:
Positiva e negativa
O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo
Aprendi a viver.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

ao amor que não é

Permita-se rebelar, permita-se ser quem você é e não mais estar sob o jugo de quem quer que seja. 
Seja você e respeite o outro; seja você e sinta em seu coração a leveza de se estar só, nem que seja uma única vez. 

Desfazer-se da insanidade e do mito de encontrar a alma gêmea é realmente trabalhoso, dolorido por vezes, mas nunca impossível. Não ter alguém não é mais um castigo, queridos, aliás, nunca foi. Não estar com alguém é simplesmente ser quem você é. É não ter medo de ser e agir, não depender, não ter que agradar. É finalmente voltar-se para si, amar-se e permitir-se estar. Encontrar-se. Estar em paz, em harmonia, em um ritmo até lento, se posso dizer, em um tempo que já não passa, não escoa mais, e ser plena. Estar só é querer paz, pois sabe-se que nunca se está só. 

É preciso coragem para escolher estar só. É preciso ser inteiramente desprovida de desejos desde os mais primitivos até os que toda vida acreditávamos ser dos mais nobres.
É preciso não mais desejar a carne e ter a certeza inabalável de que o amor incondicional é inexistente no lugar e no momento em que vivemos posto que, um amor que seja incondicional precisa estar além de qualquer condição, ou seja, uma mãe amaria a todos os que se colocam na condição de filho e não somente aquele que se diz, pelas leis e costumes atuais, seu filho legítimo. 
Assim, toda e qualquer relação que envolva o mínimo ou o máximo de amor nesta dimensão, é tão somente um amor condicionado. Ama-se alguém por que esse alguém tem determinadas características que agradam talvez aos olhos, ouvidos ou qualquer outro sentido. 

É impossível amar sem condições, ainda, qualquer animal de estimação que seja, posto que, o amam porque ele é tal animal; ele é um gato, ou um cachorro e dada essa primeira condição, ser um ou outro, ou um terceiro, ou quarto, ou quinto espécime, já desfaz a incondicionalidade do amor, que passa a exigir aquele que foi salvo na rua e abrigado por nós, o que foi doado por alguém e nos afeiçoamos de maneira tal, etc, etc. 
Aquilo que é cativado passa a ter condição, do contrário amariamos a todos os animais, bem como todos os seres humanos sem restrição alguma. Tanto aquele que nos pega pela mão e frequenta nossa casa, quanto àquele que não pactua das mesmas ideias e vontades. Os da esquerda e os da direita, os que militam em causas que não entendemos e os que militam e causa nenhuma, os religiosos e os não-religiosos..
Assim fica claro que o amor incondicional é mais uma construção faláciosa, um mero deleite do ego que se satisfaz ao incorporar a sutilidade e o desprendimento de uma mísera fração de um amor responsável e muitas vezes com alto grau de reciprocidade, o que, por si só, já é um erro grave, visto que o amor, para que seja verdadeiro, não necessita ser recíproco. O amor é. Sem condições, sem poréns, sem tempo, nem espaço. E então vive-se na errada interpretação de que se ama e se é amado, provando por meio de rituais de passagens impensados que se repetem ao longo dos séculos, um certo amadurecimento, alguma regularidade financeira, quando o que se tem mesmo é o medo de estar e permanecer só. Defrontar-se com uma verdade diferente das quais nos condicionaram, que só se é feliz ao lado de quem se ama. 

Ninguém disse que é fácil, eu sei. Ainda no século 17, uma mexicana tratou disso com muita leveza e certo tom jocoso. Preferiu virar freira e ir para o convento, que sabe-se desde sempre serem muito rigorosos e inflexíveis, mas ainda assim, menos pernicioso que atrelar a vida à de alguém, jurando ser para todo o sempre. Para sempre é muito tempo e não querer correr o risco de ver-se preso ao que quer que seja ou a quem quer que seja não é nem nunca foi egoísmo, mas é sim, amor próprio. 

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

linhas temporais

sabe que é estranho manter-me no aqui e no agora, enquanto vagueio por aí, em linhas temporais diferentes, tentando encontrar o que não é. me deparo novamente com o vir a ser? descrevo padrões pelos quais não me guio. acho que não moro mais em mim. 

nunca quis ser o que era, você estava coberto de razão. eu nunca quis ser o que sou, porque é demasiado cansativo explicar-me. eu parei de ter opinião, só reproduzo parâmetros pelos quais finjo me guiar. não tenho bússola. nunca consegui me guiar sozinha. sempre precisei que me indicassem o caminho, algum caminho a seguir. eu não sabia ser quem sou. 

tardiamente cansei de fingir, finalmente aceito o que sou, quem sou e quem eu não posso ser. 
vamos falar dos cento e trinta e dois dias, vamos falar do descompromisso, da energia da terra, da força da natureza. vamos falar das energias deletérias também, daquilo que não presta, que pulsa, mas pulsa apodrecido. pulsa errado.
vamos falar do novo, da gnose, da radiação, da nova terra, da ascensão. 
ego, personalidade e sexo são assuntos da pré escola. por favor! mude sua frequência, eu não sintonizo mais você. não sintonizo mais aquilo que você ainda é e que eu deixei de ser. 
eu sei o por quê, eu sempre soube por quê não poderia ficar com alguém assim e olha só quanta ironia, eu que nunca quis, nunca esperei homem algum. eu sempre soube que eu não sou nem nunca gostaria de ser como você. 
!

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

quando em teresina

já posso começar a pensar em frases como 'quando morei em teresina eu..', porque já me vejo distante daqui, em outra realidade. é cansativo, eu sei. por vezes muito penoso. imaginar-se em outro lugar, em outra fase, uma outra vida, mesmo porque nunca quis grandes coisas da vida. sempre fui me deixando levar, rindo dos problemas depois que passam, rindo do lapso de tempo que é uma vida. 
finalmente criei expectativas. duas ou três no máximo. minha cabeça não aguentaria mais que elas, porque já vivo em um mundo paralelo, um mundo em que nada é o que aparenta ser. um mundo em que você é o que não vai ser nem o que foi. 
devo parecer uma contadora de histórias meio alucinada, um pouco depressiva. não sou nada disso. sou outra coisa, menos isso. você ainda não me vê. 

domingo, 27 de setembro de 2015

aconteceu com um amigo de um amigo meu

em um desses momentos de álcool no sangue e paz no coração dei carona à um amigo. eu estava tranquila porque estava com um amigo, porque ele não me interessava nem um pouco e porque, como sempre, ele era o namorado da minha amiga, mas aí ele se confundiu. acho que estava bêbado demais.. pra ele era amor. eu insisti, fui firme no meu não. ele arrefeceu, se inclinou pra trás e achou que eu estava sem graça. insistiu. eu disse que ele era alguém importante na vida da minha amiga e não deveria tratá-la assim. imediatamente ele jurou terminar tudo com ela e que o faria o mais rápido possível e então eu me sentiria mais tranquila. eu? ele não tinha entendido.. então eu disse que ele se precipitou, que eu era mesmo amiga e era legal assim, porque eu sou uma amiga legal assim, mas não estava interessada nele. já estava tarde. pedi que saísse do carro. eu estava cansada. feliz, mas cansada. parei em frente a casa dele, ele agradeceu a carona e desde esse dia ele acha que deveriam existir no mundo mais pessoas como eu. 
vez ou outra me liga para contar como está a vida, diz que ainda pensa em mim, em como não acredita existir tamanha lealdade ou sinceridade ou isso que ele achou que viu em uma quinta-feira tarde da noite. tem um filho e contas para pagar. também mudou-se de maringá. 

sábado, 26 de setembro de 2015

a soul to dig the hole much deeper

do ponto de vista da pessoa, não sou muito feliz. do ponto de vista da eternidade, sou extremamente feliz. 
minha natureza humana é um pouco triste, um pouco negativa, um pouco melancólica. já a natureza do desconhecido, minha verdadeira natureza, é leve, incansavelmente feliz, apaixonada pela vida que ainda não é. 
em viagens astrais me sinto outra pessoa. quando me deparo no corpo sou infinitamente pequena e me sinto presa. 
equilibrar essas duas vidas, as duas "pessoas", viver em harmonia com o que sou e com o que preciso ser. 
a pequena pessoa é autoritária, por vezes ainda sente raiva. a raiva é um sentimento complexo para pormenorizar. eu sinto raiva. não da vida ou das pessoas, mas eu a sinto e em alguns momentos com muita intensidade. 
em seguida me deparo com uma pessoa  tranquila, sem desejos, sem necessidades.. me sinto livre. 
vivo duas realidades: sou o que não sinto, sinto o que ainda não sou. 
acabo me tornando um ser complexo e misterioso mesmo não querendo. tento ser transparente e verdadeira ao passo que não posso. às vezes sinto que vivo minha vida sem mim. sou dona de trechos, parágrafos, interseções. sou todas as vírgulas sem ponto final, mesmo sabendo que nunca fui livro, nunca fui lida. 

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

reféns no brasil real

entendo a preocupação de muitos com as inúmeras imigrações que vem acontecendo por todo o mundo. entendo também que cada um esteja fazendo o que acha correto, tentando encontrar a melhor solução, digo, uma solução, aliás, existe solução correta?
digo que entendo a preocupação dos outros, porque no fundo não me preocupo o suficiente para querer saber detalhes. o que sei e entendo bem é que vivemos como reféns, nós somos os refugiados em um país que cresce somente em sonho. prósperos sonhos da nação que jorrará mel e leite, celeiro e coração do mundo, a pátria do evangelho. nós somos reféns do futuro. 
fazemos nossa segurança na cintura, nos equipamos com câmeras de vigilância com tecnologia de ponta, pois se dermos sorte, teremos um close em full hd do possível suspeito. que sorte a nossa! enfiar mais um por de trás das grades e pagar por refeições e banhos de sol, enquanto aqui fora o preço do pão sobe. mas tudo bem, a justiça foi feita e ao invés dele levar o que está guardado dentro das casas, o que foi pago e devidamente pago, roupas, relógios caros, perfumes importados, eletrônicos, ele vai só ser sustentado com o nosso dinheiro. quem não vê justiça aí?
nós temos medo e bebemos todas as noites, tentando nos enganar de que a solução está logo ali, que isso tudo vai passar rápido, que não estamos tão mal assim. 
felizes aqueles que podem, ainda que por azar e com muito, mas muito sofrimento, largar tudo para trás e correr riscos, mas ainda assim partir em busca de tempos melhores, porque nós ainda estamos aqui, fingindo enxergar o que não vemos, tentando entender o que é incompreensível, nos animando e querendo acreditar que ainda é possível. no fundo somos nós os que precisam de asilo político, estrangeiros em nosso próprio país, recorremos a férias no exterior sempre que possível, para fugir da loucura que é ver o possível e conviver com o impossível, o abismo, o absurdo que foi feito nesse lugar. ainda assim, a grande maioria dos que se utilizam dessa técnica, o turismo, nunca esteve no interior miserável que essa nação tem entranhada em seus milhares e milhares de quilômetros e se choca, se revolta quando digo que não entendo e não sirvo para discutir sobre política, a filosofia da política, a ciência política, pois sempre fui do tipo que põe a mão na massa, aprendendo para ensinar o outro, o pobre, que é sempre símbolo de joguete, massa de manobra na mão de grandes jogadores.  
eles encontraram amor em minha agressividade, em minhas leituras, nas pequenas introduções à língua inglesa, no lanche da tarde, ao lampejo de possibilidades, qualquer possibilidade de algo diferente da realidade abusiva que os abraça diatiamente e eu sou grata por cada lição de humildade aprendida com cada um deles, os nossos refugiados. 
continuo não sendo eloquente na política. confesso que me abstive nas últimas eleições e no fundo tento até não sentir, mas me pego um tanto orgulhosa, na falta de definiçào melhor, de não ter colaborado ativamente para o resultado matemático nas urnas, pois não gostaria de ter votado em ninguém. estava ocupada indo aonde ninguém quer ir, nem ficar, muito menos voltar, o brasil real.